Após a recente apresentação dos resultados do Observatório do Estudante, Alexandra Araújo, coordenadora do projeto, detalha o trabalho de acompanhamento realizado junto dos estudantes e o impacto das medidas implementadas na integração académica.
Comunica UPT: Qual é a missão do Observatório do Estudante da UPT e que necessidades institucionais estiveram na sua origem?
Alexandra Araújo: O Observatório do Estudante, que integra o Eixo IV do Projeto +Sucesso@Universidade Portucalense, tem como principal objetivo a monitorização do desenvolvimento, adaptação, e sucesso académico dos estudantes. Trata-se de uma estrutura dedicada à recolha, análise e interpretação de dados sobre os estudantes durante o seu percurso académico, com um foco particular no primeiro ano, em que os estudantes devem desenvolver novos métodos de estudo, integrar-se num novo contexto social e adquirir maior autonomia pessoal, enquanto gerem cargas de trabalho elevadas, novos relacionamentos e se confrontam com níveis superiores de stress. Estes fatores conduzem frequentemente a sentimentos de incerteza e dúvida face à sua competência académica e pessoal, dificuldades académicas, frustração com as expectativas iniciais e desânimo, que poderão levar a decisões de abandono. Dada a relevância deste primeiro ano, no qual se verificam tipicamente as taxas mais elevadas de abandono do Ensino Superior, o Observatório procura identificar os fatores de risco e os promotores do sucesso, de modo a informar todos os envolvidos na tomada de decisão, no acolhimento, no ensino e no apoio aos estudantes.
De que forma o Observatório contribui para a promoção do sucesso académico e para a prevenção do abandono no Ensino Superior?
A nossa atuação assenta em três vertentes fundamentais. Em primeiro lugar, a identificação de perfis de estudantes, designadamente estudantes em maior risco e estudantes de maior sucesso. Em segundo lugar, a produção de informação para suporte à decisão e, em terceiro lugar, a capacitação da comunidade académica.
Como é realizada a recolha sistemática e longitudinal de dados sobre os estudantes?
A recolha de dados é realizada em contexto de sala de aula, com a participação voluntária dos estudantes para o preenchimento de questionários de autorrelato. Os dados são recolhidos no primeiro e no segundo semestre, em todas as licenciaturas e mestrado integrado. Os questionários recolhem dados de natureza diversa, incluindo: caracterização sociodemográfica, características académicas no ingresso e durante o curso, percursos de adaptação ao Ensino Superior, desenvolvimento de competências socioemocionais, indicadores de saúde mental e, ainda, satisfação académica e compromisso com o curso e com a Universidade.
De que modo a informação produzida pelo Observatório permite identificar precocemente estudantes em risco e apoiar intervenções eficazes?
Os resultados do Observatório mostram que nem todos os estudantes experienciam o Ensino Superior da mesma forma. Um grupo significativo de estudantes reporta experienciar dificuldades significativas em termos da sua saúde mental, que interferem com o seu estudo e envolvimento no curso. Também se identifica um grupo de estudantes que parece ter maiores dificuldades em gerir as tarefas e avaliações académicas, com sinais de menor compromisso com estudo e sucesso escolar. Por outro lado, estudantes deslocados, mais velhos, internacionais, trabalhadores-estudantes, ou estudantes de contextos socioeconómicos e culturais menos favorecidos poderão sentir mais desafios na sua transição e adaptação ao Ensino Superior. O Observatório permite identificar barreiras sentidas por estes estudantes. Os dados recolhidos dão pistas relevantes para informar acerca do tipo de intervenção psicológica e apoio educacional que melhor responderá às suas necessidades, e para ajudar os docentes a refletir sobre a adequação das suas práticas pedagógicas às necessidades e expectativas dos estudantes, melhorando as mesmas, de forma contínua.
Que impacto tem tido o trabalho do Observatório na melhoria da qualidade do ensino e da experiência académica?
A informação recolhida e tratada pelo Observatório permite a sinalização antecipada de dificuldades gerais sentidas pelos estudantes, nomeadamente através da análise das suas perceções de bem-estar, recursos emocionais, integração social e sucesso académico, bem como de comportamentos de assiduidade e envolvimento em avaliações. Este trabalho tem permitido identificar fragilidades específicas, como no ajustamento pessoal-emocional e métodos de estudo, levando a recomendações de intervenções continuadas a meio do ano e formação de docentes para práticas pedagógicas inovadoras e centradas no estudante. Os dados de 2025/2026 mostram que cerca de 85% dos estudantes estão satisfeitos com o seu curso, evidenciando o impacto positivo do acompanhamento.
Quais são, atualmente, os principais desafios do Observatório?
Nenhum Observatório, incluindo o de Estudantes da UPT, consegue, infelizmente, chegar a todos os estudantes, apesar de ser esse o seu objetivo. Atualmente, o Observatório preocupa-se com o aumento da representatividade dos vários perfis de estudantes nos dados recolhidos, pois muitas vezes os estudantes com maiores dificuldades, ausentes da Universidade, não respondem aos questionários. Por outro lado, é sempre importante gerir a proteção de dados dos estudantes e as questões éticas no processamento desta informação. Ao garantir-se o anonimato e confidencialidade na recolha e tratamento dos dados, perde-se a oportunidade de sinalizar casos particulares de estudantes que poderiam ser encaminhados para apoios específicos. Por isso, é importante tratar os dados, de forma global, e atempada, o que nem sempre é fácil face aos recursos existentes e aos ritmos próprios dos cursos na Universidade.
Que objetivos e linhas de desenvolvimento estão definidos para o seu futuro?
No futuro, pretende-se uma maior integração tecnológica do Observatório com os sistemas de informação da Universidade e garantir o tratamento em tempo útil. Importa também o aprofundamento de perfis, cruzando variáveis como idade, género e estatuto de trabalhador-estudante para compreender a adaptação e sucesso ou insucesso de grupos minoritários. No futuro, procurando-se a estabilidade do trabalho do Observatório, pretende-se contribuir para uma abordagem preventiva universal, através de ações de formação para estudantes, docentes e serviços, bem como da promoção da literacia em saúde mental e redução do estigma no pedido de ajuda.