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“Investigação deve ter um estatuto idêntico ao do Ensino”

“Investigação deve ter um estatuto idêntico ao do Ensino”

Há seis meses, Carlos Brito tomou posse como Vice-reitor para a área da investigação. Tem a seu cargo três unidades de investigação que concentram 226 investigadores de Portugal, Espanha, Estados Unidos da América e Brasil, atualmente envolvidos em 23 projetos.

Defende para a Investigação um estatuto idêntico ao do Ensino e espera que os três centros, daqui a um ano, “obtenham, pelo menos, a classificação de Muito Bom pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)”.

 

Comunica UPT: Quais as razões que o levaram a aceitar o desafio de ser Vice-reitor da Universidade Portucalense (UPT)?

Foram essencialmente três as razões que me levaram a aceitar este desafio. Em primeiro lugar, o enorme prestígio da Universidade Portucalense no âmbito do sistema de ensino superior em Portugal. Criada em 1986, a UPT granjeou uma reputação de qualidade que, aliás, é bem patente não só no contexto do ensino universitário, mas do próprio ecossistema de educação e ciência que tem como centro a cidade do Porto. Nesse aspeto, não posso deixar de salientar que a nossa localização no Porto Innovation District, que corresponde basicamente ao polo da Asprela, é especialmente relevante dado estarmos inseridos num dos hubs com maior concentração de conhecimento da Europa.

Em segundo lugar, porque acredito na visão que a entidade instituidora e, em particular, o seu Conselho de Administração têm no que se refere ao caminho a trilhar pela universidade. Trata-se de uma visão que, recentrando a investigação ao colocá-la no cerne do desenvolvimento estratégico da UPT, é ambiciosa sem pôr em causa a necessária sustentabilidade do projeto.

A terceira razão prende-se com a enorme qualidade dos investigadores da UPT que, agregando-se em torno de três unidades de investigação – o IJP na área do Direito, o REMIT na área da Economia, Gestão e Tecnologia e o INPP no âmbito da Psicologia e Educação – congregam um grande potencial, mormente em termos das sinergias que se poderão obter através da transversalidade de projetos envolvendo diferentes áreas do conhecimento.

Para terminar, não posso deixar de salientar que a minha própria experiência pessoal, não só como docente e investigador, mas também no domínio da gestão universitária, pesou na decisão porquanto sinto que posso ser uma mais-valia nesta fase de importantes desafios para a UPT.

 

Sendo a investigação um dos pilares da UPT, pode falar da linha estratégica que foi definida para esta área?

A estratégia de investigação da UPT tem como grande objetivo aumentar a quantidade e, principalmente, a qualidade da produção científica. Para isso há que trabalhar três eixos estratégicos: o estatuto da investigação, as estruturas de suporte e a sustentabilidade.

O primeiro e principal fator crítico de sucesso é que a Investigação tenha um estatuto idêntico ao do Ensino. Sem isso, o seu papel dentro da Universidade Portucalense será sempre visto como secundário. Para dar resposta a este objetivo, temos vindo a alterar o quadro regulamentar, sendo exemplos disso a recente publicação do novo Regulamento Geral dos Terceiros Ciclos, o processo em curso de criação da Comissão de Ética para a Investigação em Saúde, assim como a revisão do sistema de avaliação dos docentes e investigadores. O próximo passo será ajustar os próprios estatutos da UPT nesta matéria, colocando a Investigação num patamar idêntico ao do Ensino.

O segundo eixo prende-se com o apoio à investigação pois a produção científica da UPT será sempre limitada se não houver uma efetiva estrutura de suporte. Atualmente temos o denominado ‘Research Office’ que, na realidade, não tem uma existência mais do que virtual pois encontra-se vazio de funções e recursos. Vamos, por isso, reforçá-lo com meios e recursos. 

O terceiro eixo estratégico é o da sustentabilidade. A investigação deve ser capaz de captar financiamento e de gerar outras receitas para fazer face aos investimentos que realiza e às despesas em que incorre. Para isso temos de estar atentos a todas as oportunidades de financiamento, a começar pelas de âmbito regional e a acabar nas calls competitivas internacionais, designadamente no âmbito da União Europeia, mas não só. Por outro lado, estamos a seguir uma política muito ativa de estreitamento de ligações com o tecido empresarial com o objetivo de potenciar a investigação aplicada financiada total ou parcialmente por empresas. Isto significa que a atual política de investigação da UPT deve abranger tudo aquilo que tem a ver com I&D+i, ou seja, não apenas a investigação e o desenvolvimento, mas também a inovação enquanto processo de geração de valor baseado em novas soluções.

Este ponto é, para mim, de enorme importância. A posição mais cómoda seria defender que caberia à própria Universidade Portucalense financiar uma parte significativa da produção científica. Seria, de facto confortável, mas seria profundamente errado pois, no limite, a qualidade da investigação também se pode medir pela capacidade de atrair financiamento e gerar receitas. É por isso que defendo uma investigação sustentável do ponto de vista financeiro: porque, no longo prazo, é um indicador de excelência da nossa produção científica.

 

Como pretende desenvolver a sua gestão e organização?

A produção de conhecimento é uma das componentes da missão da Universidade Portucalense. Nela afirma-se que a universidade deve, e passo a citar, “contribuir para o progresso do saber e para o desenvolvimento humano, através da produção e da transmissão de conhecimento, assim como da prestação de outros serviços à comunidade”. Isto significa que, desde logo, é essencial articular a Investigação quer com o Ensino quer com políticas ativas no domínio da Terceira Missão capazes de contribuírem para o desenvolvimento da economia e da sociedade.

Feito este enquadramento, realço 10 grandes ações em curso ou a implementar a curto prazo: reforço das equipas de investigação; criação de um ‘Advisory Board’ e de um Gabinete de Apoio à Investigação; maior articulação de atividades conjuntas geradoras de sinergias entre o IJP, REMIT e INPP, e reforço do papel da Biblioteca Geral da UPT enquanto ‘player’ de ciência; definição de áreas estratégicas de investigação e melhoria do sistema de estímulos à investigação; maior eficácia do sistema de vigilância e divulgação de oportunidades de financiamento às atividades de investigação e melhoria das condições de apoio à preparação de candidaturas a financiamento competitivo; reforço da inserção em redes de investigação internacionais; reforço do envolvimento com tecido empresarial e promoção da ligação a incubadoras, parques de ciência e tecnologia e outras estruturas do sistema científico e tecnológico; maior articulação entre a investigação e o ensino, em especial ao nível do 2º e 3º ciclos, e criação de Encontros de Investigação Jovem para estudantes de mestrado e doutoramento; promoção da visibilidade da investigação realizada através de uma melhor divulgação de ciência; e melhoria do sistema de controlo e acompanhamento dos meios, processos e resultados da investigação.

 

De que modo o seu vasto conhecimento nas áreas do Marketing, Empreendedorismo e Inovação pode ser aplicado no desenvolvimento e na projeção da Universidade?

Agradeço a pergunta pois permite-me, de algum modo, desenvolver um pouco mais aquilo que disse no início. Tudo o que procurei transmitir ao longo desta entrevista assenta exatamente nos três pilares que mencionou. Em primeiro lugar, acredito que a única forma de se atingir a excelência é em situações de concorrência. E para isso o marketing é essencial, pois se não soubermos “vender” as nossas ideias, projetos e resultados da investigação dificilmente conseguiremos gerar, atrair e reter talento num quadro de sustentabilidade financeira. Depois porque, como também salientei, acredito que num mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo, as universidades têm de ser empreendedoras, isto é, têm de demonstrar dinamismo, capacidade de iniciativa, resiliência e criatividade. Se isto é válido no âmbito do ensino superior público, ainda é mais relevante no contexto do ensino superior privado, na medida em que é um fator crítico de sucesso para a sua competitividade e crescimento. Finalmente, temos a inovação. Inovar significa criar valor com base em novas soluções, tanto ao nível dos produtos e serviços como dos modelos de negócio. No atual contexto gerado pela Covid-19, a UPT tem de ser ainda mais inovadora, criando novos programas formativos, implementando novas abordagens pedagógicas e gerindo, quer a transmissão quer a produção do conhecimento, com base em modelos também eles novos, mas sempre com o mesmo propósito: gerar mais valor, pois sem isso não há inovação.

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